A sky full of stars

Eu acho que tem algo de mágico na vida. Algo de misterioso que nenhum cientista conseguiu decifrar ainda. Acho que as estrelas do céu olham pra terra e, apaixonadas, brincam de contar humanos. E de vez em quando, quando elas estão distraídas, passa um humano-cadente. Aí elas fecham seus olhos e fazem um pedido. O problema é que todos os humanos são cadentes. E se todos os humanos estão caindo, o que será de todas as estrelas do céu?

Not good enough

Já faz dias que não consigo dormir direito. Abro as janelas do meu quarto através das paredes frias e conto todas as estrelas do céu. Passam dezenas, centenas, milhares delas, mas nada faz passar essa vontade. Deito e levanto como se estivesse devendo alguma coisa ao mundo, como se algo estivesse incompleto na minha existência.

Eu saio de casa e tento entender todas as outras existências. Todo o cosmo e microcosmo de sonhos desfeitos que nos acordam no meio da madrugada como se fosse a hora do almoço. Eles me cobram a dívida que fiz comigo há tempos, me cobram a coragem que nunca tive. Cobram a sinceridade e a fé que em algum momento eu perdi. Me cobram mais do que eu posso dar e talvez por isso eu tenha desistido - porque eu não sou suficiente. Eu não me basto para os meus sonhos.

Anjos e demônios

As pessoas passavam as dezenas, centenas - talvez milhares - e ninguém percebeu. Ninguém viu o rapaz sentado no meio-fio escondendo as lágrimas como quem afasta demônios no meio de uma noite chuvosa, apesar de ser um dia ensolarado.

Descalço, seus pés pareciam pisar uma terra diferente da minha e da sua. Talvez ele nem fosse daqui, talvez ele fosse um desses anjos que caem na Terra por acidente e sofrem uma vida e meia tentando alcançar o paraíso novamente.

Talvez ele fosse um demônio que não conseguiu almas suficientes para atormentar. Ou talvez ele fosse somente um humano - como eu e você -, que sofre e sente como qualquer outro. Mas hoje, ali naquele meio-fio, ele não era nada, por isso ninguém reparou. Nem eu, nem tampouco você. Mas poderia ser qualquer um de nós.

Do mundo

Choveu como há tempos não chovia e pequenas gotas escorriam pelas telhas da minha casa como o último gole de cerveja sai da garrafa. Meio bonito, meio sofrido, dizem que é assim que tem que ser. Abri a janela tentando alcançar uma das estrelas que estavam grampeadas no céu. “Tá longe pra caralho”, pensei. Quase tão longe quanto o que eu procurava, mesmo sem saber exatamente o que era.

Fechei a janela de novo, apaguei o cigarro e abri outra cerveja. “Foda-se essa merda”, pigarreei pra mim mesmo, “minha alma é o mundo”.